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Esforços para a conservação da Amazônia devem
vir em breve Rhett A. Butler, mongabay.com Nos últimos quatro anos o Brasil tem posto de lado mais de 20 milhões
de hectares da bacia amazônica para reservas e proteção.
O país tem agora cerca 110 milhões de hectares, uma área
duas vezes o tamanho da França, sob alguma forma de proteção,
dando-lhe o maior sistema de áreas protegidas no mundo. Isso, combinado
com preços das matérias primas caindo e mais rigorosa aplicação
das leis ambientais, tem ajudado a causar uma queda de quase 40 por cento nas
taxas de desmatamento anual desde 2004. Mais progresso é esperado no
próximo mês nas conversações sobre clima em Nairobi,
quando o governo brasileiro proporá uma expansão da conservação
da floresta tropical no âmbito de um plano que faria países industrializados
cumprir metas de emissões de gases de efeito estufa através de
compensação dos países tropicais pela renúncia ao
desmatamento e reflorestamento de áreas desmatadas. Embora estes sejam
sinais de esperança, uma imensa ameaça está surgindo no
horizonte: a mudança climática poderia causar o desaparecimento
da floresta amazônica até o final do século.
Dr. Philip Fearnside, um Professor de pesquisa no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, em Manaus no Brasil e um dos mais citados cientistas sobre o tema das mudanças climáticas, entende bem essa ameaça. Tendo passado mais de 30 anos no Brasil e agora sendo reconhecido como um dos principais especialistas do mundo no assunto da floresta amazônica, Fearnside está trabalhando para conseguir nada menos do que salvar este notável ecossistema. Fearnside acredita que salvar a Amazônia vai exigir uma mudança
fundamental de percepção, onde a Amazônia é reconhecida
como um ativo muito além do seu preço atual de mogno, soja, ou
gado, e onde seu valor só é desbloqueado pela sua destruição.
"A Amazônia vale muito mais do que isso", diz ele. "Ela
pode desempenhar um papel essencial na luta contra as mudanças climáticas,
enquanto fornece sustento econômico para milhões através
de uma agricultura sustentável e a exploração racional
dos seus produtos renováveis. Ela pode servir como um armazém
de biodiversidade e ao mesmo tempo garantir o abastecimento confiável
de água e moderar a temperatura e a precipitação regionais.
Em suma, mantendo-se a Amazônia como um ecossistema viável faz
sentido economica e ecologicamente - é do nosso melhor interesse preservar
esse recurso, enquanto ainda podemos. Mongabay: Parece haver uma variedade de estimativas sobre as causas atuais do desmatamento na Amazônia, como você poderia desdobrar as fontes da perda de floresta na região? Você espera que a contribuição destas fontes deva mudar durante a próxima geração?
Mongabay: Qual é a sua perspectiva em 20 anos para a floresta amazônica? 50 anos? Como vão as mudanças climáticas afetar a Amazônia?
O desmatamento está progredindo rapidamente, e se continuar durante 20 ou 50 anos, o resultado seria desastroso. No entanto, é muito importante para não sucumbir ao fatalismo que tão frequentemente afeta discussões sobre a Amazônia. O que acontece depende de decisões humanas. Isso inclui não só os desmatamentos diretos que estão destruindo a floresta, mas também as alterações climáticas que ameaçam de destruir a floresta, mesmo sem nenhum desmatamento adicional. Acredita-se que o aquecimento global seja a causa dos aumentos observados na freqüência dos fenômenos de El Niño, que são causados por águas quentes superficiais no Oceano Pacífico. A maioria dos modelos climáticos agora prevêem o desenvolvimento de fenômenos "permanentes" semelhantes ao El Niño no Pacífico. Um modelo de clima (o modelo Hadley Center do Escritório Meteorológico do Reino Unido) mostra este El Niño permanente resultando em desaparecimento catastrófico da floresta amazônica até 2080, se o aquecimento global não estiver controlado. Outros modelos atualmente não mostram a ligação entre condições semelhantes ao El Niño e a sêca na Amazônia. Infelizmente para nós, o fato do El Niño provocar sêca na Amazônia é conhecido baseado em observações diretas - e não depende dos resultados de modelos climáticos. Isso é óbvio para qualquer pessoa na Amazônia que viu os incêndios durante os El Niños de 1982-1983, 1997-1998 e 2003. A ameaça de um "El Niño permanente" , portanto, tem que ser levada muito a sério. Mais uma vez, ele depende de quanto a sociedade considera o problema de ser sério. Se o uso de combustível fóssil e desmatamentos forem reduzidos de modo a refletir a importância do problema e, então o pior poderia ser evitado. Se isso não acontecer, o perigo de um "efeito estufa desenfreado", escapando do controle humano, torna-se muito maior. A desintegração da floresta amazônica, com a liberação dos estoques de carbono na biomassa e no solo, seria um fator significativo para nos empurrar para um efeito estufa descontrolado. Mongabay: Em um capítulo que o senhor escreveu recentemente em Ameaças Emergentes para Florestas Tropicais, o senhor argumentou que "desmatamento evitado" tem o maior potencial para atingir tanto benefícios climáticos quanto outros benefícios ambientais, como a preservação da biodiversidade. O senhor acredita que as novas iniciativas de conservação da floresta em troca de compensação pecuniária promovidas pela Coalição de Nações de Florestas Tropicais, e logo pelo Brasil, são um passo na direção certa? Estão sendo desenvolvidos melhores esquemas alternativos ? Estas propostas vão exigir algum tipo de capitulação por parte dos Estados Unidos referente a sua posição oficial sobre a mudança climática? Fearnside: O "desmatamento evitado" tem um grande potencial,
tanto na luta contra o aquecimento global quanto na função de
manter a floresta amazônica com todos os seus serviços ambientais,
onde o armazenamento de carbono é só uma parte. As propostas da
Coalição das Nações de Florestas Tropicais e do
Ministério do Meio Ambiente do Brasil são certamente positivas.
As propostas são de contribuições voluntárias para
um fundo, o que aparentemente é visto como o máximo politicamente
viável para obter a aprovação. Espero que no futuro pagamentos
referentes ao "desmatamento evitado" representarão crédito
de carbono para as quotas obrigatórias que os países industrializados
assumem no âmbito do Protocolo de Quioto. Obviamente, isso representa
uma forma de crédito onde muito mais dinheiro está potencialmente
envolvido, com um potencial correspondente maior para substituir a atual economia
da Amazônia baseada em destruir a floresta. Mongabay: As recentes descobertas da chamada "terra preta" (terra preta do índio) no Brasil ajudaram a apoiar a teoria de que a floresta amazônica foi, tempos atrás, domicílio de culturas avançadas e grandes populações sedentárias. Quais são as implicações dessas descobertas para conservação? Há uma maneira na qual o carbono poderia ser aglomerado de uma forma semelhante e usado para fazer a Amazônia mais produtiva para agricultura? Aumentando a fertilidade da Amazônia para culturas será prejudicial para a floresta, a longo prazo, por abri-la para o desenvolvimento?
Fearnside: Terra Preta não é exatamente uma " descoberta recente". O fato de que povos indígenas no passado influenciaram as florestas que nós vemos da Amazônia hoje, é importante para a compreensão dessas florestas. O solo em lugares de "terra preta" é mais fértil e produtivo para a agricultura que quaisquer outros solos na Amazônia. Sua extensão é limitada e dispersa em pequenas áreas, tornando-as mais importantes para os pequenos agricultores do que para os grandes proprietários. A possível importância de "terra preta" na mitigação do aquecimento global reside nos esforços para reproduzir o processo de formação do solo para criar "terra preta nova". Isso aumentaria não somente a sustentabilidade de qualquer plantação, mas também de armazenar mais carbono no solo. Carvão vegetal finamente pulverizado é um importante ingrediente da "terra preta" e está sendo testado separadamente como um aditivo de melhoramento do solo que aumenta a absorção pelas plantas de quaisquer nutrientes que são adicionados ao solo. Pelo menos teoricamente, o plano é a utilização dessas técnicas para recuperação de áreas que já estão desmatadas. As áreas já desmatadas são suficientemente grandes para que quaisquer programas de recuperação de seus solos, criando nova "terra preta", poderiam ser ocupados por um longo período. Se essas técnicas provam ser um grande sucesso, capazes de remover limitações de solo em grandes áreas a baixo custo, é evidente que logo em seguida seriam necessários mais esforços para estas técnicas não se tornarem um novo incentivo para o desmatamento. A maneira adequada de lidar com essa possibilidade é reforçar o controle e a influência sobre uso da terra, em vez de negligenciar ou mesmo ativamente dificultar o desenvolvimento da tecnologia para criar nova "terra preta". Mongabay: Em sua experiência, mandatos de desenvolvimento sustentável podem entrar em conflito com as iniciativas de conservação? Em caso afirmativo, como é que vamos numa maneira melhor encontrar um equilíbrio entre a preservação de áreas naturais e a manutenção da população residente no local ? Fearnside: "Reservas de desenvolvimento sustentável",
"reservas extrativas" e várias formas de gestão de extração
de madeira para florestas nacionais e estaduais ganharam importância no
Brasil no meio dos esforços recentes de criação de reservas.
Isto é, em primeiro lugar, porque é muito mais fácil convencer
as autoridades governamentais para criar reservas deste tipo, especialmente
quando são grandes. O Estado do Amazonas tem ampliado significativamente
desta forma seu sistema de reservas ao longo dos últimos quatro anos.
A desvantagem é que algumas áreas que têm elevado valor
de biodiversidade e poucos residentes seriam adequadas para unidades de categorias
de conservação que oferecem proteção completa, como
parques nacionais e estações ecológicas, mas em vez disso
acabam em uma categoria politicamente mais fácil, mas menos protegidas. Mongabay: O que o senhor acredita que funcione ou não nos esforços
atuais de conservação? O senhor viu mudanças nas estratégias
para preservação florestal desde que começou a trabalhar
na Amazônia? Mudaram percepções das populações
locais e dos governos em relação aos biólogos de conservação?
Fearnside: Na prática, conservação é uma
combinação de estratégias cuidadosamente planejadas e ações
rápidas para tirar proveito das oportunidades que vão surgindo.
Estudiosos tendem a concentrar-se em cuidadosamente estudar análises
para estabelecer prioridades. Como um dos primeiros a aplicar técnicas
de análise de brechas para o problema da criação de reserva
na Amazônia brasileira, posso ser acusado dessa síndrome. No entanto,
abordagens oportunistas muitas vezes podem resultar em avanços muito
maiores. A grande quantidade de reservas antigas criadas por Paulo Nogueira
Neto seguiu esta abordagem. Exemplos recentes disso incluem a criação
do Parque Nacional do Tumucumaque (o maior do Brasil), bem como a série
de reservas criada na sequência do assassinato da Irmã Dorothy
Stang, em fevereiro de 2005. Mongabay: Quais são seus pensamentos sobre as iniciativas privadas de conservação, como os esforços Doug Tompkins no Chile? Será que tem uma chance de sucesso considerando a oposição local e do governo (quando e onde existe)? Fearnside: Esforços privados de conservação que envolvem compras de terra por estrangeiros não são opções úteis no Brasil. Seria melhor se os estrangeiros investissem em ajudar grupos brasileiros para promover a conservação, inclusive ajudando os governos federal e estadual para criar e defender as suas próprias áreas protegidas. Organizações internacionais bem como brasileiras, não governamentais (ONG), estão ativos neste processo. Mongabay: Que conselho o senhor pode dar aos alunos que pretendem seguir uma carreira na conservação? Existem graus específicos que devem considerar ou a conservação é hoje tão multifacetada, que podería ser alcançada por um conjunto de diferentes disciplinas? Fearnside: A conservação é um campo vasto que requer habilidades em muitas áreas. Obviamente, biologia representa o núcleo da maioria das atividades. No entanto, a geografia é também muito procurada, principalmente a utilização de sistemas de informação geográfica (SIG) e técnicas de sensoriamento remoto. Estudos antropológicos nos diversos tipos de reservas de desenvolvimento sustentável e em zonas tampão são igualmente importantes. Em geral, no entanto, o melhor conselho é estudar a ciência núcleo em primeiro lugar, neste caso na biologia de conservação, e em seguida, pegar ferramentas específicas, tais como SIG como um complemento, e não o inverso. Mongabay: O que os indivíduos podem fazer aqui nos Estados Unidos para proteger florestas tropicais? E sobre a conservação da biodiversidade, tanto local como globalmente? Fearnside: O que indivíduos fazem para florestas tropicais varia
entre dar dinheiro para causas dignas até dedicar sua vida inteira de
trabalho para estes problemas. Uma variedade de opções de consumidores
pode ajudar, como a utilização de madeira certificada através
do Forest Stewardship Council (FSC). No entanto, é mais básico
para os Estados Unidos e arrumar a própria lei ambiental do país.
Com os E.U. não querendo parar de cortar os últimos vestígios
da sua propria mata virgem ou "de crescimento antigo" no Noroeste
da costa do Pacífico e no Alasca, apelos de parar desmatamento para países
como o Brasil são naturalmente vistos como hipócritos, embora
a base do argumento para ignorar todas as sugestões de fontes norteamericanas
e construida sobre um engano lógico: argumentum ad hominem, ou atacar
o homem, em lugar do argumento. Mongabay: Qual é o seu lugar preferido na bacia amazônica? |
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©2007 Rhett Butler |